quarta-feira, 18 de março de 2015

Reforma Agrária

O texto não é meu, mas bem que poderia ser.

"Eu também vou fazer uma reforma agrária. No meu coração. O olho fixo lá para dentro e me assusto. Quanta injustiça social! Profunda deve ser a mudança, assim como está, não pode ser.
Os latifúndios.Vastas regiões desanimadas, despovoadas, cortadas aqui e ali pelos secos riachos da recordação. Folhagens desbotando tristemente, pássaros-profetas augurando solidão.
O usucapião. Ordinário. Extraordinário. Campinas sem cultivo, endurecidas à força de saudades, o eco soturno da paisagem sem senhor. Vales entregues a si mesmas, ao cego, mudo, anônimo feitor. Colinas refulgindo à luz de bárbaro sol desconhecido.
Mal dividido. Este pobre coração. Enriquecidos de Natais serranos, de avelóis e de mandacarus, de cegos cantando nas feiras, de rodas de carro-de-boi, de rondas sob a luz do luar, de secas quando se pedia água, de vento quando se implorava amor.
Uma reforma. De base. Que transforme o antigo, que a tudo arrase. Derrubando os mitos, os ídolos e os símbolos todos, na coivara dos altares profanados. Suma-se o falso, abaixo o inglório, fogo e ferro para os monarcas absolutos deste miocárdio espoliado.
Mas não arrasado. E eu vos direi, no entanto, ó posseiros destes meus ventrículos, ó campônios destes aurículas minhas. Hosana! Aleluia! Porque a reestruturação é imperativa, há lugar para vós todos.
Com os ápodos. Queridos! Bem-amados! Lindezas! Belezas! Uma nova ordem emocional, é o fim da exploração da alma da mulher pelo facão do homem. Mudaram os tempos, abram-se os portões.
Dos corações. Agrilhoados, envilecidos, subordinados, entristecidos.
Por isso urge uma reforma de base. Que a tudo extinga. Mas que a nem todos abrase."

Crônica " Reforma Agrária" publicada em 26 de novembro de 1961 no Jornal do Comércio, e extraída do livro - Chuva Miúda - Flora Machman